INDO ALÉM DO MEDO!

“Eu temo, tu temes, ele teme. Nós tememos!”

Quem não tem medo de algo? O medo faz parte da realidade humana. Segundo a Psicologia, em determinados contextos, é até “saudável” ter certo medo. Isso em função de moderação e/ou limites

Mas não é por acaso que na Bíblia, do livro de Gênesis ao Apocalipse, encontramos Deus falando ao Seu povo, “Não tenham medo”. Jesus, o Deus que se fez gente, veio e chamou a atenção usando as mesmas palavras, “Não tenham medo!”. São dezenas de registros espalhados pelas páginas das Escrituras. A Bíblia nos mostra claramente que essa foi uma das questões existenciais que surgiram após o pecado no Éden ou, como muitos o chamam, pecado original. Em Gn 3:9,10, após o evento da queda em tentação do homem e da mulher, vemos isso claramente: “Deus chamou o homem e lhe perguntou: ‘Onde você está?’ Ele respondeu: ‘Ouvi a tua voz no jardim, e porque estava nu, tive medo, e me escondi.”  Eis aí o princípio do medo!

O medo que passará a fazer parte da vida de Adão está diretamente relacionado ao motivo de medo de grande parte, senão a maioria absoluta, dos seres humanos ainda hoje: o medo da morte. E por morte podemos compreender vários significados, mas especialmente a perda da vida em si. Com Adão, o negócio estava claro. Deus havia lhe dito: “Se você desobedecer a minha vontade – o direcionamento Divino – e fizer a única coisa que lhe disse para não fazer, você certamente morrerá (Gn. 2:16,17). Então, Adão, ao descumprir o que devia, se viu ameaçado de morte. Sua nudez não era apenas física, mas viu-se sem as roupas da justificação apropriada. Ameaça de ser não apenas “descoberto”, mas “derrotado” ou “destruído”. Aliás, sentir-se “ameaçado” está no centro do medo.

Dois dos maiores transtornos atuais – ansiedade e depressão – tem suas raízes no medo. Um medo que tem a ver com atitudes mas também com o tempo. Atitudes do passado ou o que o futuro está por trazer. Alguns traduzem filosoficamente o medo como “temor”, “surto violento”, “grande inquietação em presença do perigo real ou imaginário”. Ou seja, o medo é o que se expressa numa profunda insegurança existencial. Insegurança que se torna angústia. Sérgio B. Gregório diz que angústia “é o medo sem objeto: sua fonte é imaginária, desconhecida, inconsciente, vem de dentro de nós”. É difícil, em termos práticos, não correlacionar senão os termos, pelo menos as experiências, e o medo está no centro disso.

O escritor americano Mark Twain afirmou que “coragem não é a ausência do medo, e sim o enfrentamento dele”. Isso tem uma relação direta com o ensino bíblico-cristão sobre como lidar com o medo. Quando Deus vocacionou o jovem Josué a substituir Moisés na liderança e condução do seu povo rumo à terra prometida, Ele disse: “Seja forte e corajoso! Não tenha medo, nem fique assustado, porque o SENHOR, o seu Deus, estará com você por onde quer que você andar” (Js. 1:9). Em outras palavras, “Josué, não tenha medo. Não tema nem as ameaças! Eu, O Eterno – Aquele para Quem não tem limitação de espaço, tempo e poder – estarei ‘com você’ sempre. Sempre”.

 

E isto também nos remete às palavras de Jesus, o Deus Filho, quando disse aos seus discípulos em diferentes e até ameaçadoras circunstâncias: “Falei essas coisas para que em mim vocês tenham paz. No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: eu venci o mundo” (Jo. 16:33), e “Eis que estou com vocês todos os dias até o fim dos tempos” (Mt. 28:20). Gosto de enfatizar que este termo “eis” trata-se de uma partícula de sentença grega (idóu) que significa “Olha!” ou “Preste atenção!” Jesus estava chamando a atenção para a importância e essencialidade de sua declaração que seguiria: há fundamento para a coragem, para enfrentar a vida e seus desafios e ameaças, e o fundamento é o que desde o início dos tempos vem sendo anunciado, a companhia – presença e proteção – Divina.

Assim, podemos e precisamos aprender com estes princípios e ensinos. Repito a mim e a todos nós, integrantes desta cultura obesa de informações, “precisamos aprender!”.

Quando Adão se viu diante do medo sua atitude foi a que muitos de nós, semelhantemente, tomamos em várias situações. Ele mesmo disse, “tive medo, e me escondi”. Diante do medo, em muitos casos – senão na maioria ou talvez em todos eles – ao invés de o enfrentarmos com coragem, nós nos escondemos. Fugimos. Procuramos proteção para o nosso medo e não livramento dele: criamos justificativas, buscamos cavernas, refugiamo-nos em relacionamentos tóxicos, recorremos a vícios destrutivos, fomentamos a destruição vingativa de outros e assim por diante. Como observa Jordan Peterson, em seu livro “As Doze Regras Para a Vida”: “As pessoas com agorafobia (distúrbio de ansiedade) podem ficar esgotadas com o medo a ponto de não saírem de casa”, e “nossos sistemas de ansiedade são muito práticos. Eles entendem que qualquer coisa da qual fugimos é perigosa.  Essa tem sido atitude comum identificadas em pessoas de dentro e fora da religião, e da igreja.

O apóstolo Paulo, que escreveu a maior parte dos livros do Novo Testamento, pelo menos em dois momentos, nos deixou palavras que precisam nos encorajar a lidar com o medo com coragem. Escrevendo pastoralmente a Timóteo a fim de que enfrentasse os desafios ameaçadores do próprio ministério disse: “Porque Deus não nos deu espírito de medo (ou covardia), mas de poder, amor e moderação” (II Tm. 1:7), e escrevendo aos cristãos de Corinto ele declarou algo que deveria sacudi-los para a vida, tirá-los da zona de conforto e do medo, ao dizer que “em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos…Tendo, porém, o mesmo espírito da fé, como está escrito: Eu cri; por isso, é que falei. Também nós cremos; por isso, também falamos, sabendo que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus e nos apresentará convosco… Por isso, não desanimamos; pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de dia em dia. Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação, não atentando nós nas coisas que se veem, mas nas que se não veem; porque as que se veem são temporais, e as que se não veem são eternas” (II Co. 4:8ss).

Portanto, se queremos lidar com o medo que nos aterroriza interiormente – e só nós e Deus  sabemos disso –, precisamos CRER EM DEUS. Crer em Deus não é um tiro no escuro. Crer em Deus é ir além dos nossos sentidos. Crer em Deus é ir além do nosso limitado conhecimento. Crer em Deus é crescer até mesmo na nossa razão, talvez poderíamos falar de ter uma  “absurda sensatez”. Crer em Deus é algo que procede do espírito, lá onde age o Espírito de Deus, onde a fé extra-ordinária se manifesta. Crer em Deus é não fugir. Crer em Deus é viver, viver livre.  Em termos absolutamente práticos, crer em Deus é ir muito além do medo.